Domingo, 2 de Abril de 2006

Há quem tenha sangue azul, outros há que o têm frio, e há ainda os que não sabem dele.

Hoje assisti ao programa 60 Minutos na Sic Notícias. Uma das reportagens abordava a questão da inseminação artificial com recurso a dadores de esperma anónimos, e das implicaçõs deste anonimato na vida de todos os envolvidos (dadores, filhos daí resultantes, famílias, etc.).

Sempre que assisto a uma reportagem deste género, não consigo evitar alguma perplexidade ante aqueles homens que por dinheiro aceitam que se produzam filhos seus que nunca conhecerão. O caso que mais me chocou foi o de um dador jovem, médico pediatra por sinal, que afirmava gostar muito de crianças, e que possivelmente já terá dado origem a uma centena de filhos através desta técnica. Actualmente é casado e está à espera do seu "1º filho". Quando o questionaram acerca da existência destas crianças, respondeu que não sentia que fossem seus filhos e a sua existência não o preocupava nem lhe suscitava curiosidade. No entretanto, mães de filhos seus estavam a "conta gotas", e por acaso, a descobrir que tinham filhos do mesmo pai, através do seu código de dador, e a educá-los para que no futuro se venham a sentir como os irmãos que afinal são. Já só lhes faltava encontrar os restantes aproximadamente 97 irmãos...

Numa outra reportagem sobre o mesmo tema a que assisti há já algum tempo, assistia-se à angústia de filhos destes dadores, em busca das suas origens. Dois homens, ambos filhos de dadores anónimos, que procuravam há anos desfazer o anonimato por trás da sua criação, e depois de já se conhecerem há algum tempo, descobriram com uma enorme comoção que afinal eram irmãos.

Eu pergunto-me: será que esta prática é correcta? Será que as pessoas que nascem desta técnica não têm o direito de conhecer as suas origens, que é uma forma de também se conhecerem a elas próprias?

Como é que nós nos sentiriamos se metade do nosso ser viesse da mais profunda escuridão, se não soubéssemos de quem era o sangue que nos corria nas veias?

 

Eu não perdoaria ninguém pela angústia de não conhecer as minhas origens, assim como não seria capaz de suportar saber que algures pelo mundo existia uma criança minha filha, possivelmente com aquelas "covinhas no rosto", aquelas "mãos finas", aquele "olhar profundo", aquele "cabelo rebelde", aqueles "dentes desalinhados" que me são tão familiares sempre que me olho ao espelho...

publicado por Incógnita às 17:10
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2 comentários:
De xgirlx a 2 de Abril de 2006 às 22:11
olá!
a mim isso também me faz uma certa confusão, embora a muita gente não deva fazer, senão ninguém procurava esse tipo de inseminação...Eu acho que deve ser complicado e muito, depois explicar a uma criança quem é o pai, porque de facto não se sabe!!!
jinhuxx***+++
p.s: vou pegar o teu link, para te vir visitar mais vezes :)
De ccampos a 6 de Abril de 2006 às 20:16
É discutivel, se por um lado estou de acordo com o jovem médico, pois não me importaria de ceder sémem (legalmente é claro); por outro vejo-me no papel de alguém que vem ao mundo e não sabe quais as suas origens. Eu pessoalmente destaria nascer e saber que era filho de um dador de sémem, não deve ser nada estimulante. Parabéns pelo BLOG e esteve muito bem ao descrever a sua fisonomia.

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