Quarta-feira, 17 de Janeiro de 2007

Falta vergonha à justiça portuguesa

Tentei fazer um esforço para não abordar este tema aqui no blog, mas não consegui. É demasiado revoltante para me conseguir conter. Aliás, não se trata apenas de não conseguir - trata-se de não querer.

Eu estou incrédula com o que se passa neste país.

Uma criança actualmente com cinco anos, foi entregue a um casal de acolhimento com poucos meses de vida. Agora, cinco anos passados, o pai biológico percebeu que ter um filho até é coisa para ter a sua piada, e reclama a custódia da criança. Mais: ele pretende que a menina quebre drasticamente os laços com a família que a acolheu e que lhe seja entregue para nunca mais a ver. Resta ainda acrescentar que a criança não o conhece sequer. Agora, o escandaloso: o tribunal deu-lhe razão. O pai adoptivo tentou fugir com a filha para evitar este trauma na menor e está preso neste momento.

Já não é a primeira vez que isto acontece - é comum que neste país, ao fim de alguns anos passados em famílias de acolhimento, crianças adoptadas lhes sejam retiradas repentinamente por um qualquer motivo fútil que o tribunal lá saberá.

Mas que falta de respeito é esta para com as nossas crianças?

Não são apenas os enforcamentos de prisioneiros que devem ser considerados actos bárbaros. Isto que se passa com as crianças portuguesas também é inademissível: provoca-lhes um sofrimento atroz, causando sequelas graves a nível psicológico que podem perdurar para o resto da vida, comprometendo-lhes um crescimento saudável, equilibrado, e acima de tudo, feliz.

Para todos os efeitos, e aos olhos destas crianças, os pais são os pais. Não lhes faz a menor diferença nesta idade que o sejam adoptivos ou biológicos. E o que se passa é cruel. Muito cruel. Estas crianças precisam de ser defendidas de uma justiça que as olha como uma qualquer mercadoria que muda de dono conforme decisão sua, sem levar em conta os interesses e vontades dos menores.

Curiosamente, isto passa-se a um mês do referendo ao aborto.

Existem, por acaso condições neste país para proteger as crianças abandonadas pelos pais biológicos?

Não me parece.

Aos que têm a sorte de ser recebidos de braços abertos por uma família disposta a amá-los, acontece isto.

Já os que ficam aos cuidados de instituições, têm fortes probabilidades de que loucos se cruzem nos seus caminhos.

Neste momento sinto vergonha do meu país.

publicado por Incógnita às 17:50
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6 comentários:
De João Barbosa a 19 de Janeiro de 2007 às 03:32
1º a justiça devia ser célere, pelo que todos sofrem. Sofre mais a criança que é quem menos deveria sofrer.
2º não tenho nada a ver directa ou indirectamente com esta história, mas parece-me que o pai biológico não foi tido nem achado na adopção.
3º um pai é tão necessário quanto uma mãe para fazer um filho. um pai devia ser tão necessário ser achado quanto uma mãe no momento de dar um filho para adopção.
4º parece-me haver aqui várias vítimas e vários réus. vítimas claras: a criança e o pai biológico. réu clara: a mãe biológica que deu a criança para adopção sem ouvir o pai. Vítimas e réus em simultâneo: os pais adoptivos, pois embora possam ter adoptado de boa-fé uma criança nada justifica terem-na subtraído à justiça ou à avaliação do Estado.
De Incógnita a 19 de Janeiro de 2007 às 11:11
A questão é exactamente a que enumera no 1º ponto: a justiça devia ser célere. Se tudo isto se tivesse passado logo aquando da entrega da criança ao casal de acolhimento, a criança seria devolvida ao pai biológico sem argumentos contra. Seria o correcto. O problema é que se passaram longos cinco anos, e a criança já fez da família de acolhimento a sua família. Retirá-la nesta altura para a entregar a um desconhecido (porque neste momento o pai é um desconhecido) seria já cruel demais. E a verdade é que este não se preocupou minimamente quando foi informado pela mãe biológica de que iria ter um filho. Toda esta história lembra-me aquela antiga lenda bíblica do rei Salomão. A mãe verdadeira abdicou da criança para que esta não sofresse...
E obrigada pelo comentário.
De kaetana a 22 de Janeiro de 2007 às 16:19
pelo que me pareceu, o Pai biológico qd soube da gravidez da Mãe, simplesmente foi á vida dele e nessa altura não se importou com nada...
Eu concordo com a incógnita, este País é uma vergonha...eu acho q fazia o mesmo q o Pai Adoptivo, ele só quis proteger a criança e de certeza q sabe o que é melhor para ela. Foram eles q a criaram...agora se há dúvidas quanto ao acolhimento q fizeram, de certeza q há entidades competentes, ou deveria haver, para analisarem essa situação- Agora retirar uma criança ao fim de 5 anos ??? Por Amor de Deus !!! Tenham compaixão pela menina...é uma vergonha !!!!
De João Barbosa a 22 de Janeiro de 2007 às 21:05
obres dos pais adoptivos são destratados? ...
O que me faz mais confusão é que neste país que coloca tantos entraves a quem quer adoptar uma criança seja o mesmo que permita uma adopção em que o pai biológico não é tido nem achado e se chegue a uma situação destas.
A história está mal contada por parte da mãe biológica. Ela tenta denegrir o pai biológico e desacreditá-lo. Tanto diz que ele tem bens como não tem casa. O certo é que deu a criança seu o ouvir e criou toda esta situação. Ninguém a prende? Ela é que deveria ser presa!
De João Barbosa a 22 de Janeiro de 2007 às 21:09
Esta coisa do sapo comeu-me palavras... Vou tentar escrever novamente.

Este país é uma vergonha mesmo! O que se vai fazer agora à menina? Apresentá-la a um senhor e dizer que é o pai? O que vai a menina pensar e sentir perante um estranho? É duma enorme violência.
E os pobres dos pais adoptivos são destratados? ...
O que me faz mais confusão é que neste país que coloca tantos entraves a quem quer adoptar uma criança seja o mesmo que permita uma adopção em que o pai biológico não é tido nem achado e se chegue a uma situação destas.
A história está mal contada por parte da mãe biológica. Ela tenta denegrir o pai biológico e desacreditá-lo. Tanto diz que ele tem bens como não tem casa. O certo é que deu a criança seu o ouvir e criou toda esta situação. Ninguém a prende? Ela é que deveria ser presa!
De Incógnita a 22 de Janeiro de 2007 às 22:20
Esperemos para conhecer o desfecho deste caso. Na minha modesta opinião, a criança deve permanecer onde está, com quem está, mas sabendo quem é o pai biológico e mantendo uma saudável convivência com ele, sem entraves de nenhuma das partes. Como eu não mando no mundo, assisto.
Obrigada, Kaetana.
Obrigada, João.

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