Segunda-feira, 2 de Julho de 2007

Que se lixe o título. Não gosto de rótulos.

     Existe uma altura em que cessa a licença para fugir. Pode acontecer em qualquer idade, e é inevitável a quem tem sonhos de futuro e claras memórias do passado.

     É a constatação da nossa inevitável condição pessoal. É o basta. É o perceber que afinal a vida não tem de ser bela. Que afinal não somos, nem nunca seremos os melhores, os mais inteligentes, cultos ou belos. Que por mais fortes que nos acreditemos, sempre existirão olhares capazes de nos devolver à nossa intrínseca fragilidade. Que as nossas particularidades são afinal o que nos torna semelhantes a mais 6 biliões de indivíduos. Que não fazemos a diferença sozinhos, nem conseguiremos mudar o mundo. Que a perfeição só existe no nosso imaginário para nos condenar a uma vida de ambições impossíveis e desejos insaciáveis.

    Que algumas coisas nunca mudarão. Que por outras não vale a pena lutar. E que daqui a 100 anos dificilmente alguém se lembrará de nós. E não será por isso que o Sol deixará de aquecer, nem as flores de rebentar em cor nas Primaveras, nem o vento de soprar forte e frio nos Invernos de então. Serviremos apenas, como hoje servem os que já foram, para provar que a imortalidade é um conceito morto.

publicado por Incógnita às 18:57
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4 comentários:
De Joana a 3 de Julho de 2007 às 10:16
Alberto Caeiro.

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

(Gosto imenso da última frase do que escreveste.)
De Incógnita a 3 de Julho de 2007 às 14:44
Curiosamente, Alberto Caeiro sempre foi de todos os heterónimos aquele que menos interesse me desperta, por isso perdi este poema. Deste-me -o agora. A ideia é precisamente esta.
E tenho lido o "desassossego" como tu. Faz todo o sentido.
De Anónimo a 7 de Julho de 2007 às 10:36
Não deixes por isso de acreditar que tens um lugar, um papel, e que nisso, és insubstituivel..
De Anónimo a 7 de Julho de 2007 às 10:42
A anonima anterior vem dizer que se chama Arco-Iris, bj

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